Texto por
>>Roberto Sagawa

Durval Bellegarde Marcondes nasceu na cidade de São Paulo, no Brasil, em 27 de novembro de 1899. Sua infância foi marcada pela exploração do “Brasil transtordesilhano” que representou o Brasil das entradas e bandeiras. Foi o Brasil dos bandeirantes que caminhavam pelo sertão adentro, rompendo o costume português de cinco séculos no Brasil que se limitou a habitar sempre o litoral somente e fugir de penetrar o sertão adentro. Os bandeirantes que, em suas tropas sempre incluíam os mestiços de índios, foram os primeiros portugueses já aclimatados com coragem suficiente de enfrentar os sertões inexplorados do Brasil. Os bandeirantes da sua infância foram um modelo de identificação para Durval que, mais tarde, assumiria a tarefa árdua de desbravar outros tipos de sertões da psique.

Na adolescência de Durval, nada constou que pudesse ser relatada em particular. No entanto, ao contrário dos demais estudantes universitários, desde o seu ingresso na Faculdade de Medicina, decidiu os rumos de seu futuro. Já no primeiro ano como aluno da Faculdade de Medicina de São Paulo viveu um fato extraordinário que teve uma repercussão duradoura e decisiva. O estudante de Medicina leu o artigo “Do delírio em geral”, do professor Francisco Franco da Rocha, que foi publicado em 20 de março de 1919, no jornal O Estado de São Paulo. Este artigo foi extraído da aula inaugural da cátedra de Neuropsiquiatria da Faculdade de Medicina de São Paulo. Durval Marcondes descobriu a Psicanálise que, mesmo na Europa, ainda não tinha obtido o reconhecimento científico da Psiquiatria e da Medicina que conseguiu obter após a II Guerra Mundial.

Em 1924, formou-se médico pela Faculdade de Medicina e Cirurgia de São Paulo. Em 1925, abriu um consultório particular, onde passou a praticar a análise, de forma espontaneísta ou auto-didática. No Brasil, foi o primeiro médico psiquiatra a por em prática clínica as descobertas freudianas feitas até então.

Em 1928, participou de um concurso para concorrer a uma cadeira de literatura no ginásio do Estado. Apresentou uma tese intitulada O simbolismo estético na literatura. Ensaio para uma orientação para a crítica literária baseada nos conhecimentos fornecidos pela psycho-analyse. Perdeu a vaga para o seu concorrente, mas não perdeu a viagem intelectual. Enviou uma cópia desta tese para Freud e recebeu uma carta de Freud datada de 18 de setembro de 1928, estimulando-o a prosseguir no desbravamento da Psicanálise.

Em 1927, fundou a Sociedade Brasileira de Psychanalyse, em São Paulo. Franco da Rocha foi designado Presidente, mas, na verdade, quem dirigiu esta primeira Sociedade foi mesmo Durval Marcondes. Também em 1927, foi lançada a Revista Brasileira de Psychanalyse. De novo, enviou uma cópia desta edição a Freud que respondeu contando que tinha conhecimento do castelhano e assim podia compreender o conteúdo desta edição. Somente em 1967, a Revista Brasileira de Psicanálise foi relançada na sua forma definitiva e, desde então, permanece sendo editada regularmente.

Esta primeira Sociedade foi desativada por Durval Marcondes quando constatou que seus membros não tinham interesse de tornar-se psicanalistas e o objetivo de divulgar a psicanálise já tinha sido alcançado. Em 1930, foi divulgado pela Associação Psicanalítica Internacional o sistema de formação de psicanalista baseado nos moldes praticados no Instituto de Psicanálise de Berlim. Durval Marcondes se propôs a criar em São Paulo um Instituto de Psicanálise nestes moldes da IPA.

Somente em 1937, efetivou-se a vinda de um psicanalista já formado nos moldes exigidos pela IPA. Desembarcou em São Paulo, a dra. Adelheid Lucy Koch que fez sua formação psicanalítica no Instituto de Psicanálise de Berlim, com a aprovação do Dr. Ernest Jones, presidente da Associação Psicanalítica Internacional. Em 1938, a dra. Koch começou a analisar os primeiros candidatos a psicanalistas: Virgínia Bicudo, Flávio Dias, Darcy de Mendonça Uchoa e o próprio Durval Marcondes.

Em dezembro de 1938, foi criado uma seção de Higiene Mental Escolar, na Secretaria de Educação do Estado de São Paulo. Nesta Seção, foi criado um novo tipo de “educadora sanitária” que foi denominada de “visitadora psiquiátrica”, numa época em que não existia nem assistente social e nem psicólogo. Entre as visitadoras psiquiátricas, algumas se tornaram mais tarde psicanalistas e, assim, esta Seção ganhou a fama de ser um celeiro de futuros psicanalistas.

Em meados dos anos 40, os primeiros candidatos analisados pela dra. Koch e novos candidatos que continuavam a aderir a este grupo, fizeram gestões junto à direção da Associação Psicanalítica Internacional e conseguiram obter um reconhecimento como Grupo Psicanalítico de São Paulo. Em 1951, foi obtido o reconhecimento definitivo como Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo. Naquela época, este primeiro grupo de psicanalistas fez questão de restringir a área de ação institucional a São Paulo e não se responsabilizar pelas demais regiões do Brasil.

Além de psicanalista, Durval Marcondes também fez carreira como professor universitário. Foi professor assistente de Psicologia Social, de 1934 a 1938. Foi professor de Psicanálise e Higiene Mental, de 1940 a 1949, na Escola Livre de Sociologia e Política de São Paulo. Foi professor de Higiene Mental entre 1934 e 1937, no Instituto de Higiene que se tornou a Faculdade de Higiene e Saúde Pública da USP.

Em 1954, foi convidado pela professora Anita de Castilho e Marcondes Cabral para dar aulas de Psicologia Clínica na Cadeira de Psicologia da Faculdade de Filosofia da USP. Junto com Aníbal da Silveira, criou um Curso de Especialização em Psicologia Clínica. Em 1957, foi criado o Curso de Graduação de Psicologia da USP. Também criou, em 1962, a Clínica Psicológica onde os alunos podiam realizar o estágio prático e foi o primeiro diretor desta Clínica. Foi Chefe de Departamento de Psicologia Clínica neste Curso.

Entre 1955 e 1975, é o período da produção psicanalítica madura em que publicou com maior regularidade. Um fator fundamental foi o retorno editorial da Revista Brasileira de Psicanálise, a primeira publicação científica no Brasil, em 1967, na qual Durval Marcondes publicou com frequência seus artigos clínicos e científicos.

Um modo mais informal de dar um flagrante no modo de ser de Durval Marcondes pode ser reconstituído por Amina Maggi Piccini que foi aluna dele e depois se tornou professora no Departamento de Psicologia Clínica da USP e membro efetivo da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo. Estão nos dois relatos a seguir:

“(…) recordei-me de um diálogo com Durval Marcondes: – O que faz seu marido?
– Trabalha na Física, com baixas temperaturas.

– E eu nas altas (aludindo à sua atividade clínica com os clientes). Tal era o Dr. Durval.” (Maggi, 1982: 29).

“Minha cachorrinha me ensina muita coisa. Quando quer subir numa poltrona dá alguns passos para trás a fim de tomar impulso. O mesmo ocorre com o paciente em análise: regride para poder crescer” (Maggi, 1982: 22).

Em 1977, parou de praticar a análise em consultório particular.

Faleceu em 27 de setembro de 1981.

Em 1997, foi publicada a coletânea de seus poemas inéditos A obra poética de Durval Marcondes, organizada por Carlos da Silva Lacaz.

Durval Marcondes foi um freudiano que NÃO se tornou kleiniano e nem bioniano e nenhum outro iano. Permaneceu fiel e coerente freudiano, o que não aconteceu com nenhum dos primeiros psicanalistas formados pela dra. Adelheid Koch, em São Paulo. Nos anos 1950 e 1960, a Psicanálise em São Paulo já não seguia mais apenas Freud, mas também havia consagrado Melanie Klein e Anna Freud (por sua liderança na IPA e nos Estados Unidos) como sendo duas psicanalistas mestras.

Virgínia Bicudo foi uma das primeiras adeptas da nova Psicanálise kleiniana, já nos anos 1950. Logo, os demais membros da Sociedade de São Paulo tornaram-se também kleinianos. Com o retorno de Frank Philips da Inglaterra a São Paulo, na segunda metade dos anos 1960, além de Melanie Klein, a novidade foi a introdução de mais um mestre psicanalista: Wilfred Bion. Durval Marcondes também aderiu parcialmente a Klein e Bion, mas permaneceu explicitamente freudiano. Na Sociedade de Psicanálise de São Paulo, a maioria dos analistas se tornou kleiniano (nos anos 50 e 60) ou bioniano (nos anos 1970 e 1980). Durante estas décadas, Durval Marcondes aceitou e assimilou as obras de Klein e Bion, mas permaneceu sendo freudiano.

Na produção psicanalítica de Durval Marcondes, há dois recortes que podem ser feitos para destacar o ser freudiano de Durval Marcondes: 1) a teoria da libido; 2) a teoria da “técnica” psicanalítica.

 

A TEORIA DA LIBIDO

A teoria da Libido de Freud é abordada por Durval Marcondes em um artigo publicado no primeiro ano de retorno da Revista Brasileira de Psicanálise que havia sido interrompida em 1926. Trata-se de “Identidade de sexo e estruturação do ego”. Apesar de o título não se referir explicitamente à teoria da Libido, o seu conteúdo é inequívoco a esse respeito. Mais ainda, este artigo não trata da estruturação do ego conforme deixa sugerir o seu título. Apenas menciona de passagem a estruturação do ego como sendo concomitante à assumpção da identidade de gênero sexual.

Este é um artigo que merece todo o destaque na produção psicanalítica de Durval Marcondes porque expressa uma tomada de posição que fica ainda mais clara quando comparada com o conjunto de artigos publicados neste período subsequente de retomada da Revista Brasileira de Psicanálise. A grande maioria dos artigos publicados se baseiam na Psicanálise das relações objetais (Klein e Bion) e, ao mesmo tempo, deixam em segundo plano ou até mesmo ignoram a Psicanálise clássica ou ortodoxa representada pela Psicologia do ego, sob a liderança de Anna Freud e os psicanalistas norte-americanos.

O artigo de Durval Marcondes parece indicar que ele é um aliado da Psicanálise freudiana clássica ou ortodoxa por ter incluído no seu título o termo “estruturação do ego”, mas não é bem assim. Durval Marcondes faz um recorte da Teoria da Libido de Freud que é um tanto surpreendente para nós, hoje, por basear-se na bissexualidade, um tema que ficou praticamente esquecido pela Psicanálise pós-freudiana no contexto psicanalítico brasileiro.

Durval Marcondes começa seu artigo fazendo a famosa citação de Freud escrita a Fliess: “(…) Estou me acostumando com a idéia de encarar cada ato sexual como um processo no qual quatro pessoas estão envolvidas.”. O conteúdo desta citação não é discutida por Durval Marcondes que, involuntariamente, se juntou a inumeráveis psicanalistas que também fizeram a mesma citação, nas repetidas vezes, mas nenhum deles parece ter sido capaz de decifrar o enigma em que se converteu esta afirmação de Freud.

Ao invés disso, Durval Marcondes se dedicou a psicanalisar a dificuldade de Freud na sua relação com Fliess que foi sintomaticamente apontada pelas dificuldades de Freud assumir o tema da bissexualidade na teoria da libido. Arremeta esta “análise” com a seguinte conclusão: “As dificuldades de Freud em face do tema em questão, mostram quanto este é realmente obscuro e quanto provoca forte repulsa na mente humana” (Marcondes, 1968: 469). Ora, não era preciso psicanalisar Freud para chegar a esta conclusão, mas bastava partir desta sua constatação ou convicção pessoal e desenvolver, talvez, o que Freud não teria ainda desenvolvido.

Mesmo assim, Durval Marcondes estabelece a “primitiva disposição bissexual” como sendo o ponto zero da Teoria da Libido de Freud. Este é um ponto de compreensão conceitual da teoria freudiana que é fundamental de ser explicitada. No entanto, Durval Marcondes desdobra ou desenvolve o que não foi elaborado por Freud.

Toma a cena primária e a “primitiva disposição bissexual” como ponto de partida para compreender os psicóticos e perversos sexuais. Constata que existe “a presença de três elementos separados entre si e, ao mesmo tempo, fundidos numa só representação constituída por um conglomerado de três (os pais e a criança)” (Marcondes, 1968: 470). Este núcleo básico da cena primária não é o que pode estruturar-se como complexo de Édipo. Muito pelo contrário, sua característica estrutural é justamente o de impedir ou impossibilitar a formação do triângulo edípico.

Durval Marcondes expõe quatro resoluções deste núcleo básico: “1) Fusão da criança com os pais unidos. 2) Separação da criança com relação aos pais unidos. 3) Fusão dos pais entre si. 4) Separação dos pais, em relação um ao outro” (Marcondes, 1968: 470). Nas quatro possibilidades existentes, em nenhuma pode surgir o terceiro edípico. Ao invés disso, trata-se de manter sempre o “conglomerado de três” que estão separados entre si e, ao mesmo tempo, fundidos em um só.

Demonstrando a capacidade de assimilar a Psicanálise moderna, Durval Marcondes cita a nova teoria das posições kleinianas por meio da “posição gliscro-cárica” que foi criada por José Bleger e que “seria cronologicamente anterior à posição esquizoparanóide de Melanie Klein” (Marcondes, 1968: 470). A partir desta inovação kleiniana, Durval Marcondes propõe um novo conceito que não existe na obra freudiana: o de “núcleo hermafrodita primário da estruturação do ego”, que foi apresentado, pela primeira vez, em outro artigo: “Anotações para a compreensão psicanalítica da mania” (1967).

Este “núcleo hermafrodita” serve para dar forma aos fracassos edípicos. Ao invés de haver um jogo ou interação do Eu que incorpora as características do próprio sexo e torna o sexo oposto como objeto desejado relativos ao casal parental, o “núcleo hermafrodita” quando preservado através de perversões sexuais ou psicoses, “complica, às vezes, o desfecho do processo evolutivo e onera a formação da identidade de sexo, imprimindo-lhes feições muito variadas.” (Marcondes, 1968: 471).

“Em casos de homossexualidade masculina, pode-se observar que, basicamente, se trata de um esforço para a conservação de uma dupla identidade, com o fim de manter um ego que, de outro modo, viria a desagregar-se. Embora a homossexualidade tenha base etiopatogênica muito complexa, evidencia-se frequentemente essa disposição bissexual que opera numa camada psíquica mais profunda. A homossexualidade não é, porém, a forma de perversão sexual na qual a síntese interna dos dois sexos se acha representada de modo mais típico. Segundo minha experiência, essa síntese é mais expressiva no transvestismo masculino, que permite uma composição mais próxima da unidade hermafrodita original.” (Marcondes, 1968: 471).

“Em face do que ficou exposto, acentua-se a necessidade de estudo mais completo e minucioso da maneira pela qual, através da defesa e da manutenção do núcleo hermafrodita original, a perversão procura assegurar a integridade do ego” (Marcondes, 1968: 472).

Para não ser repetitivo nas citações deste artigo, estou remetendo o leitor para a leitura deste artigo inteiro como sendo um artigo representativo da produção psicanalítica de Durval Marcondes. Ali se encontra também a elaboração de saber sobre o núcleo hermafrodita no caso da esquizofrenia.

 

A TEORIA DA TÉCNICA

Na teoria da “técnica” psicanalítica, Durval Marcondes busca manter-se freudiano e, ao mesmo tempo, assimilar a novidade kleiniana. É assim que concebe o processo analítico em termos freudiano, mas, por exemplo, incorpora a contratransferência que é um conceito de “técnica” notoriamente desenvolvido pelos kleinianos. Em primeiro lugar, vamos verificar em que consiste conceber o processo analítico, em termos freudianos, através de dois artigos de Durval Marcondes em que se explicita a permanência e a solidez desta concepção. Um artigo foi publicado em 1961 e o segundo artigo em 1968.

Em “Bases dinâmicas da psicoterapia”, publicado em 1961, Durval Marcondes dirige-se aos médicos em geral pois trata-se da Revista Paulista de Medicina, órgão de publicação da Associação Paulista de Medicina. Mesmo dirigindo-se aos médicos em geral, o conteúdo deste artigo pretende ser científico e não ser um artigo de divulgação científica para leigos. Portanto, a única diferença deste artigo em relação a um outro que fosse destinado somente aos psicanalistas é, na verdade, o uso de conceitos psicanalíticos que não são nomeados, em alguns casos, a fim de ser compreendido pelo médico e não atrapalhá-lo com uma nomenclatura hermética. É o caso de posição esquizoparanóide e posição depressiva que estão descritos neste artigo, mas não estão nomeados como tais.

Existe um esquema explicativo deste artigo que pode ser explicitado em poucas palavras: a psicoterapia psicanalítica ou a psicanálise “é o tratamento das doenças por meios psicológicos” (Marcondes, 1961: 395). O que e como se caracteriza esta forma de tratamento no caso da psicanálise?

“O fundamento das relações entre o paciente e o terapeuta está nos fenômenos que os psicanalistas denominaram respectivamente “transferência” e “contratransferência”. A transferência manifesta-se de modo geral, onde quer que existam relações interpessoais, mas pode ser melhor observada e estudada no decurso do tratamento psicanalítico. Consiste na repetição, por parte do paciente e em relação ao terapeuta, de certas atitudes emocionais que, em sua origem, correspondem a situações anteriormente experimentadas. Essas atitudes envolvem sentimentos de ordem positiva ou negativa (isto é, amor ou ódio) cuja verdadeira significação é desconhecida para o paciente. A “contra-transferência” é o mesmo fenômeno que se dá, neste caso, no terapeuta.” (Marcondes, 1961:396). Um pouco mais adiante, a definição de transferência é feita mais uma vez para não deixar dúvidas no leitor: “A transferência é, pois, a revivência, no plano terapêutico, das relações infantis de objeto.” (Marcondes, 1961: 396).

Esta concepção de análise está baseada na análise de neuróticos conforme foi totalmente desenvolvida por Freud, embora Durval Marcondes não chegue a explicitar neste artigo a neurose transferencial conforme fez Freud. Durval Marcondes pressupõe que em toda e qualquer análise com todo e qualquer tipo de paciente sempre vai haver a transferência neurótica que consiste em reproduzir, repetir inconscientemente os objetos infantis. Este pressuposto de teoria da técnica psicanalítica não está explicitado, nos devidos termos, por Durval Marcondes, mas é o que orientou e determinou a sua concepção de psicanálise.

Em outro artigo, “A regressão na contratransferência”, encontramos a mesma concepção de teoria da técnica: “O processo analítico é um processo de retificação do passado” (Marcondes, 1968: 11). Esta frase é uma espécie de declaração de princípio de sua teoria da “técnica” que vai ser mantida tal e qual do princípio até o fim deste artigo. Isto fica ainda mais ressaltado se considerarmos o contexto de publicação deste artigo: é o primeiro artigo da Revista Brasileira de Psicanálise publicado em 1968. O leitor começa a folhear esta Revista e já na primeira frase do primeiro artigo encontra esta declaração de princípio da teoria da “técnica”.

Como este “processo de retificação do passado” é colocado em andamento em uma análise? Por meio da transferência, ocorre a regressão aos objetos infantis do passado do analisando e por meio da constratransferência o analista trabalha sua “participação empática nos problemas do paciente e nas suas causas determinantes que o analista pode captar sua motivação profunda e conduzir-se de modo apropriado diante deles.” (Marcondes, 1968: 13- 14). Como se vê, o processo analítico se baseia necessariamente em uma repetição ou reprodução do passado infantil no presente da análise em andamento.

É exatamente por haver esta reprodução inconsciente também pode haver uma “retificação do passado”, isto é, através da identificação regressiva do analista com o objeto infantil do paciente, é possível fazer uma interpretação transferencial que pode resultar em um “mecanismo corretivo da interpretação” (Marcondes, 1968: 12).

Este pressuposto de técnica fez com que as duas concepções diferentes de análise, a freudiana e a kleiniana, fossem reunidas em uma somente, sem precisar enunciar as diferenças e as incompatibilidades entre elas. De certa forma, o procedimento explicativo de Durval Marcondes consistiu em um modelo freudiano em que couberam as modificações kleinianas sem precisar desmontar ou reformular este modelo freudiano.

É o que aconteceu em dois pontos nevrálgicos. Um relacionado à introdução da contratransferência e outro relacionado a posição esquizoparanóide e a depressiva. Em ambos os casos, o modelo de análise é o de pacientes psicóticos (ou partes psicóticas da personalidade) que não são simplesmente encaixáveis no modelo de análise de pacientes neuróticos conforme desenvolvido por Freud. No entanto, o artigo de Durval Marcondes apresentou-os como se houvesse uma perfeita solução de continuidade entre os dois modelos de análise que, inclusive, chegam a formar um todo coerente e integrado no entendimento do leitor.

Em primeiro lugar, vou citar o trecho em que Durval Marcondes fez um resumo do desenvolvimento libidinal da criança: “A princípio a mãe, ou melhor, inicialmente uma parte dela com grande significação vital para a criança, que é o bico do seio, se investe de especial significação afetiva. Esse primeiro objeto recebe a carga positiva (amor) e a carga negativa (ódio), pelo fato de que contém as condições essenciais de segurança e subsistência, ao mesmo tempo que as limitações da realidade frustradora. Posteriormente, a mãe como um todo se integra como objeto. Outros objetos entram, a seguir, na órbita afetiva do indivíduo e passam a desempenhar papel importante. Em certo período do desenvolvimento da criança, os sentimentos positivos e negativos tendem a polarizar-se, recaindo aqueles (os positivos) no genitor do sexo oposto e os outros (os negativos) no genitor do mesmo sexo, disposição psíquica que Freud chamou “complexo de Édipo”. Tais são, de modo geral, os elementos que surgem, com diversas modalidades, no fenômeno da transferência.” (Marcondes, 1961: 396).

Este resumo do desenvolvimento libidinal faz o leitor supor que toda e qualquer criança torna-se capaz de evoluir das posições esquizoparanóide/depressiva para o Complexo de Édipo, de forma natural e automática. No entanto, esta solução de continuidade não deve ser compreendida nestes termos, mas deve ser compreendida em termos da necessidade explicativa do modelo de análise de Durval Marcondes. Isto quer dizer que Durval Marcondes está tornando compatível o que, no final das contas, pode ser incompatível entre os dois modelos de análise: o freudiano e o kleiniano. Quero deixar bem claro que estou discutindo explicitamente o que está implícito na concepção de Durval Marcondes.

A condição de continuar sendo um psicanalista freudiano pode ser distinguida em Durval Marcondes pelo fato de buscar criar novos conceitos quando os conceitos existentes se tornam insatisfatórios, incompletos, insuficientes etc. Nestes termos, Durval Marcondes tem a coragem de propor a criação de um novo conceito que, no caso a seguir, tem toda sua raiz na teoria da técnica freudiana.

“Devo dizer que, no que se refere aos objetos que se confrontam no processo da cura psicanalítica, minha concepção pessoal difere um pouco da idéia original de Strachey. No meu ver, há, sem dúvida, em cada passo do tratamento (em cada interpretação), uma distinção entre dois objetos que são postos em cotejo na fantasia do paciente. Mas o fenômeno é um pouco mais complexo. Não se trata propriamente de uma distinção entre o objeto infantil e o objeto real, que é o analista, mas de uma distinção entre o objeto infantil e um outro objeto infantil, ao qual eu proponho o nome de objeto “propício” e que, representado pelo terapeuta na fantasia do paciente, é aquele objeto que, no momento da vida infantil que está sendo revivido na análise, teria sido o objeto adequado à solução das dificuldades emocionais e, portanto, ao vencimento dos obstáculos ao crescimento psíquico do indivíduo. A sucessão gradativa de tais confrontos leva, pouco a pouco, a uma aproximação cada vez maior com a realidade e, finalmente, à aceitação das condições maduras nas relações de objeto e ao abandono dos mecanismos primitivos de defesa.” (Marcondes, 1961:398).

Durval Marcondes introduziu uma novidade conceitual própria que, em outro artigo posterior, desenvolveu de forma mais completa: a de objeto propício ou objeto eufrenogênico e objeto não-propício ou objeto disfrenogênico. Vou fazer a citação nas palavras de seu autor:

“Segundo esse autor (James Strachey), a intepretação dá ao paciente a oportunidade de sentir a diferença e, consequentemente, estabelecer a distinção entre os objetos infantis de sua fantasia inconsciente e o objeto real com que, na situação de transferência, ele se defronta na época presente, isto é, o analista. Conforme fiz ver em trabalhos anteriores (9,10), há, de fato, uma comparação entre dois objetos que ocupam a fantasia do paciente, quando este acolhe e elabora a interpretação. Mas a distinção que aí tem lugar não se dá propriamente entre o objeto infantil e o objeto real (analista) mas entre aquele mesmo objeto infantil e outro objeto infantil que, representado presentemente pelo analista, teria sido, no momento da vida pretérita, que está sendo reproduzido na análise, o objeto apropriado à solução dos problemas psíquicos do paciente e, por consequência, ao seu amadurecimento mental. A este objeto dei o nome de “objeto propício” ou “objeto eufrenogênico” em contraposição ao objeto do passado (mãe, pai, etc.) no relacionamento com o qual o paciente não encontrou as condições favoráveis para o vencimento de suas dificuldades emocionais e para o qual propus a denominação de “objeto não-propício” ou “objeto disfrenogênico”.” (Marcondes, 1968: 12- 13).

Este novo conceito de objeto propício é bem freudiano e se encaixa perfeitamente na teoria da técnica de Freud. Ele se refere ao paciente neurótico que é capaz de internalizar o objeto libidinal, mas não é ainda capaz de usar este objeto de modo adulto e, assim, se reduz a permanecer infantilizado no uso do objeto libidinal. Por meio da transferência, o paciente neurótico tem a oportunidade de usar o analista como objeto propicio e assim retomar o desenvolvimento libidinal no ponto-limite e crítico em que fracassou em sua infância.

Durval Marcondes também é bastante freudiano ao ressaltar “o mecanismo corretivo da interpretação” que se refere ao famoso conceito de Freud referido à análise como sendo uma “pós-educação”. O “corretivo” de Durval Marcondes corresponde ao “pós-educação” de Freud. Portanto, é preciso estar bastante atento para não confundir o “corretivo” de Durval Marcondes como uma espécie de ortopedia pedagógica da análise que nunca ocorreu a ele e nem mesmo a Freud.

Após a II Guerra Mundial e sobretudo nos anos 1950 e 1960, sabemos que a psicanálise deixou de dar ênfase à análise de neuróticos e passou a dar ênfase à análise de narcisistas. Ou melhor ainda, não foi a psicanálise quem mudou, mas foram os pacientes que mudaram a psicanálise com suas novas demandas de mudança psíquica baseadas no narcisismo patológico, ou não.

Neste cenário, Durval Marcondes compreendeu a mudança na demanda dos pacientes mas não conseguiu ser bem-sucedido na elaboração do saber/fazer psicanalítico, conforme passaremos a fazer a devida crítica na próxima seção.

O ponto forte de Durval Marcondes é também o seu ponto vulnerável. O psicanalista freudiano não se realizou totalmente como freudiano. O que quer dizer esta afirmação? É que Freud como criador da Psicanálise foi obrigado a descobrir e depois a demonstrar a descoberta. Mesmo depois de consagrada a Psicanálise, Freud continuou a demonstrar cada novo passo ou cada novo caminho da Psicanálise. Como discípulo freudiano, Durval Marcondes não chegou a realizar a sua vocação freudiana, em moldes próprios ou singulares.

Como podemos fundamentar a necessidade de vir a ser um freudiano original e singular, a cada geração, após Freud? É que as obras completas de Freud podem ser interpretadas como um todo, tendo em vista a existência de dois Freuds: um Freud dogmático e um Freud genético.

O Freud dogmático ou doutrinário é relativamente fácil de explicar. Trata-se de um Freud que se dedica a transmitir a teoria ou técnica psicanalíticas de forma fechada, como sendo um saber pronto e acabado. É a forma de dar coerência e organização teóricas que venha a convencer ou a converter os interlocutores. É o que fez Freud em uma boa parte de suas obras completas: “Cinco Lições de Psicanálise”, “Conferências Introdutórias à Psicanálise”, “Novas Conferências Introdutórias”, além de muitos artigos ou capítulos curtos ou passagens inseridos dentro de obras diversas.

O Freud genético é o menos revelado pelos intérpretes freudianos. O Freud genético tem várias formas de expressar-se como tal. Um deles é o de se referir sempre ao processo de constituição da teoria, da técnica e do método psicanalítico. Isto quer dizer que, nas obras completas, existe um Freud que sempre é capaz de demonstrar o vir-a-ser do saber e do fazer psicanalíticos. Freud deixa rastros do processo de construção da Psicanálise no seu modo ou estilo de escrita psicanalítica: faz questão de deixar à mostra a infra-estrutura, os detalhes aparentemente insignificantes, os erros ou acertos, até chegar ao acabamento total, permanecendo os meios à amostra sem ocultá-los no produto final como costuma acontecer geralmente. O miolo do conteúdo dos capítulos da Interpretação dos Sonhos é o modelo prototípico deste Freud genético, excluindo os capítulos da revisão bibliográfica e o da especulação teórica sobre a psique inconsciente ou a psicologia dos processos oníricos.

Patrick Mahony apresenta estes dois Freuds, nos seguintes termos: “No capítulo I, temos a oportunidade de descobrir algo acerca do fascinante contexto histórico dos dois maiores empreendimentos discursivos de Freud: um, que ele denomina dogmático, o outro, genético. É na fundamental escrita de natureza genética que Freud realmente mostra sua ousadia. Ele opta por uma escrita exploratória: em vez de descrever uma exploração anterior, ele escreve buscando descobrir o que pensa e, por outro lado, divide com o leitor essa rica aventura. É precisamente esse aspecto de seu discurso que nos remete continuamente a seus textos, mesmo aqueles que encerram conclusões deixadas de lado por ele em seguida. No discurso genuinamente genético encontramo-nos com o inconsciente de Freud e com o processo psicanalítico. Tal discurso não envolve apenas um estilo de escrever acerca da psicanálise; manifesta-se igualmente num estilo que abrange a experiência psicanalítica. Por essa razão, o estilo de Freud permanece eternamente atual, mais vivo e atraente do que muitos dos tratados psicanalíticos subsequentes. A despeito de seu conteúdo atualizado, tais obras posteriores se expressam de maneira insípida e por isso têm vida curta, de modo que, tendo seus conteúdos sido ultrapassados em virtude de novas observações, elas deixam de ser lidas, exceto por estudiosos com interesse histórico.” (Mahony, 1990:13).

Durval Marcondes se identificou com o Freud dogmático e não conseguiu explorar o Freud genético na extensão possível ao seu alcance. Ou, quem sabe, viveu em um meio psicanalítico que também não estimulou o desenvolvimento do Freud genético na medida em que “a” revolução psicanalítica deixou de ser encarnada pelo Freud genético que foi substituído por novos mestres psicanalistas nos anos 1950 e 1960: Melanie Klein, Anna Freud (nos Estados Unidos), Wilfred Bion. Durval Marcondes viveu o período pioneiro de hegemonia de Freud, mas também viveu o período de florescimento das Escolas Psicanalíticas, após a morte de Freud, que teve o auge nas décadas de 1950 até 1980.

No entanto, é muito curioso constatar que a moda das escolas psicanalíticas já passou na última década do século 20. Agora, nem Melanie Klein, nem Wilfred Bion continuam sendo vistos como “a” revolução psicanalítica, na medida em que se tornaram normalizados psicanaliticamente e passaram a fazer parte do establishment institucional psicanalítico. No entanto, não existe hoje uma Klein genética e nem um Bion genético, mas sobrevive um Freud genético que ainda hoje não produziu todos os frutos que ainda se encontram em germe na obra freudiana.

Um dos exemplos a ser dado, no Brasil, é o de Fabio Herrmann que, em suas obras, desenvolveu o Freud genético. Sem ter sido kleiniano nem bioniano, Herrmann sempre se declarou freudiano. Estão expressos nas suas obras os desdobramentos de um Freud genético que consiste em explorar o modo de construir o edifício psicanalítico sem partir do edifício já construído (como fez o Freud doutrinário) e sim explicitar o que, como e quando se realiza a construção do edifício.

No Prefácio à segunda edição de Andaimes do real: o método da Psicanálise, Herrmann afirma: “Já Andaimes do real (…) trata da essência da nossa disciplina e nunca é cedo demais para esclarecer a essência do que pretende fazer na vida, sobretudo se outros não conseguem explica-la de maneira adequada. Chegamos assim ao paradoxo de que alguém possa ser demasiado jovem , aos 40 anos, para escrever sobre aquilo de que todos falam – pois quase não há analista que duvide de ter desenvolvido estilo próprio, ou se recuse a aconselhá- lo aos demais-, conquanto que, aos 20 já estivesse maduro para tratar do que praticamente jamais se fala, mas que é condição de todo o dizer analítico: o Método da Psicanálise.” (Herrmann, 1991: 10).

“Este ensaio é sobretudo simples; sua dificuldade é a do pensamento sem mistura. Quimicamente simples, persegue uma só idéia: a generalização operacional do inconsciente psicanalítico, que permitirá ao método da Psicanálise cumprir plenamente sua vocação.

Representa o esforço de um psicanalista em recuperar a unidade essencial de sua disciplina, apoiado no seguinte fio condutor de toda a reflexão: dos três sentidos atribuídos por Freud ao termo psicanálise, o de método é logicamente anterior e primitivo em relação aos outros dois – teoria e terapia -, que, como derivados, por ele se devem pautar, não afirmando ou praticando mais nem menos que aquilo que o método legitima, mas revestindo a forma metodológica pura com carne conceitual, num caso, e clínica, no outro. É que o método de uma disciplina exprime a forma geral de seu saber e eficácia; em nosso caso, muito especialmente, da eficácia clínica.” (Herrmann, 1991: 11).

A recuperação crítica do método psicanalítico na era das Escolas Psicanalíticas é uma das propostas contemporâneas de realizar o Freud genético. No entanto, a necessidade desta recuperação já estava posta desde o início do movimento psicanalítico no Brasil.

Durval Marcondes apreendeu no começo de sua carreira psicanalítica o caráter transformador do Freud genético, mas não foi capaz de realizá-lo em toda extensão ao alcance de suas possibilidades. Por exemplo, a primeira vez que desvendou a decifração do sintoma psicossomático nos anos 1920, Durval Marcondes perdeu a oportunidade de receber uma consagração científica internacional por ter realizado a descoberta da decifração sintomática da asma brônquica em termos de análise de uma paciente asmática. Até então, nenhum psicanalista jamais havia imaginado que a asma brônquica tem uma raiz psicológica inconsciente a ser decifrada. Foi Franz Alexander que nos anos 1940 recebeu a consagração científica internacional pela decifração sintomática da asma brônquica. A partir de 1939, Franz Alexander e sua equipe começaram a publicar uma Revista de Medicina Psicossomática assim como a publicar coletâneas de Medicina Psicossomática, onde foram reveladas as descobertas inéditas sobre o psicossoma.

Durval usou a técnica de analisar neuróticos e a aplicou em um caso psicossomático bem antes de ter nascido a concepção de psicossoma. Então, por que deu certo a técnica aplicada por Durval? É que, junto com a técnica, Durval também aplicou o método psicanalítico. Se, em psicanálise, o método é geneticamente anterior à técnica e à teoria, então é possível fazer uma descoberta técnica a partir do método psicanalítico.

Durval deixou intimidar-se pela sua condição de candidato a psicanalista, nos anos 1920. Não se permitiu identificar-se com o Freud conquistador científico que tem a ousadia de elaborar um novo saber ou uma nova técnica. Ao invés disso, reduziu-se ao silêncio.

Além disso, houve mais uma fonte de intimidação para Durval que vinha da autoridade médica das Associações Médicas desta época (como a Sociedade de Medicina e Cirurgia) que foi contra a Psicanálise e sempre revelou sua oposição por acusar que a psicanálise não tem amostra clínica suficiente e nunca admitiu que um caso clínico é suficiente para se constituir em uma amostra ou casuística clínica qualitativa.

Se Durval Marcondes tivesse completado a sua elaboração de saber sobre a decifração do sintoma psicossomático, então teria realizado em si mesmo o Freud genético, isto é, o Freud criador da Psicanálise que também foi capaz de demonstrar o que, como e quando se realiza o modo de construir o saber/fazer da Psicanálise.

Se neste episódio houve um fracasso de Durval Marcondes, em outro momento posterior houve um sucesso de Durval Marcondes. Ele foi capaz de desenvolver um Freud genético em sua obra própria quando criou conceitos psicanalíticos bem freudianos: o de objeto propício e o de núcleo hermafrodita. A diferença é que, nestes dois casos, não se trata mais de uma descoberta original, mas se trata de estender o saber ali onde ainda existe alguma brecha de parir um novo conceito.

 

A TEORIA DA TÉCNICA

Sem qualquer dúvida, o objeto propício explicita o que até então nenhum outro psicanalista conseguiu captar ao vivo e sendo vivido no processo de análise. No entanto, foi válido para a época em que houve a hegemonia das neuroses transferenciais, conforme consta nas obras completas de Freud. Antes de continuar a estabelecer uma crítica ao objeto propicio é preciso fazer um parênteses para explicitar uma discussão sobre objeto libidinal e objeto interno que está implícito na elaboração conceitual de objeto propício.

A condição de diferenciar objeto libidinal e objeto interno não foi feita nem por Freud e nem por Melanie Klein. Freud chega a falar do narcisismo primário como sendo uma fase anobjetal. Ora, esta ausência de objeto foi descartada antes pelo próprio Freud. Em Tres Ensaios, Freud tinha afirmado que o primeiro objeto libidinal é o seio materno que se torna o protótipo de toda e qualquer relação amorosa. No entanto, este objeto libidinal não é ainda o objeto interno cuja concepção ainda está totalmente ausente na edição de 1905 nos Tres Ensaios. Somente depois com a postulação do narcisismo em 1914 e da segunda teoria da psique em 1923, surge o conceito de objeto interno. O protótipo de objeto interno é o Sobre- Eu assim como o Eu inconsciente, mas os próprios psicanalistas confundem o objeto interno com o Eu consciente como faz a Psicologia do Eu representante hegemônica da Psicanálise norte-americana.

Por outro lado, Melanie Klein confunde objeto libidinal e objeto interno como se fossem simples e puro sinônimos. Neste sentido, podem ser tomados como sinônimos: objeto libidinal = objeto interno = zona erógena. De propósito, é feito um reducionismo conceitual para explicitar uma confusão conceitual. É, assim, um equívoco baseado na falta de explicitação da elaboração conceitual que incentiva o diálogo de surdos-mudos.

Outro equívoco é a postulação kleiniana de que a todo objeto externo corresponde obrigatoriamente o objeto interno. Este é concebido como uma espécie de espelho do objeto externo, isto é, o objeto interno é uma fantasia inconsciente de um objeto externo. Ora, este é um ponto de vista de um observador externo ao vínculo simbiótico entre mãe e bebê. Do ponto de vista psíquico do bebê, não pode existir ainda dentro e fora simplesmente por causa da indiscriminação simbiótica. Não se pode falar neste caso de objeto interno e, ao mesmo tempo, objeto externo, mas apenas e puramente de objeto libidinal que não está “dentro” e nem “fora” do bebê isolado e autônomo.

Nenhum dos dois extremos (Freud versus Klein) tem razão de ser, por si mesmo. Também a área intermediária postulada por Winnicott como sendo o objeto transicional não resolve o dilema dos dois extremismos. O objeto transicional é uma derivação kleiniana das relações objetais, embora também dê a aparência de ser um objeto libidinal dentro da concepção freudiana. Mesmo assim, nenhuma das três possibilidades é capaz de lidar com o paradoxo da constituição do objeto sem resvalar no abismo de dois extremismos entre o interior e o exterior.

Estes impasses não foram enfrentados por Durval Marcondes que, ao invés disso, se satisfez em considerar que é possível fazer conviver os enfoques freudiano e kleiniano em uma mesma elaboração conceitual.

O objeto propicio considerado desde a clínica psicanalítica das últimas décadas traz uma constatação inevitável: é possível considerar o objeto propício se não for condicionado à relação objetal simbiótica? De certa forma, Durval Marcondes parte do princípio de que este questionamento já está resolvido pela sua conciliação entre a técnica freudiana (objeto eufrenogênico e objeto disfrenogênico) e a técnica kleiniana (contratransferência como uma forma ou instrumento técnico) sem examinar as suas contradições e dilemas.

Para Durval Marcondes, a capacidade técnica de identificação regressiva contratransferencial torna possível ao analisar lidar com a simultaneidade dualista de objeto eufrenogênico e objeto disfrenogênico, de tal forma que o analisando vive esta experiência regressiva infantil que é posta a serviço do Eu e não mais a serviço do Eu infantilizado ou como disse Freud, o infantilismo no adulto. Nestes termos, a criação do objeto interno (objeto eufrenogênico e disfrenogênico) se realiza também em termos de relações objetais que está pressuposta na técnica kleiniana baseada na contratransferência.

No entanto, o que é posto ou pressuposto como sendo uma solução conciliatória por Durval Marcondes é também exatamente o seu calcanhar de Aquiles. Tal questionamento nos conduz a considerar que o objeto eufrenogênico e o disfrenogênico a partir da distinção feita por Freud entre libido narcísica e libido apoiada.

Podemos afirmar que o objeto eufrenogênico e o disfrenogênico são restritos à libido apoiada. Isto quer dizer que houve a criação de um objeto interno no desenvolvimento libidinal. Se for assim, houve a ultrapassagem ou a ruptura da relação objetal simbiótica e assim se ingressou no complexo de Édipo, no qual se constituiu a criação de objeto interno. Ora, este é o percurso de desenvolvimento do neurótico que Freud denominou de libido apoiada.

Podem surgir o objeto eufrenogênico e o disfrenogênico quando se trata da libido narcisista? Não. No caso do narcisista, não houve a ultrapassagem no e do Complexo de Édipo, de tal forma que se permaneceu regredido na relação objetal simbiótica. Assim, na ontogênese do narcisista, NÃO resultou em criação de objeto interno, dentro de um enfoque de técnica freudiana. Nestas condições, no processo de análise de um analisando narcisista NÃO vai ocorrer também a criação do objeto eufrenogênico e disfrenogênico.

Eis um impasse fundamental que NÃO foi enfrentado por Durval Marcondes que, ao invés disso, aceitou contraditoriamente o pressuposto da técnica kleiniana: o de que as relações objetais postulam sempre os objetos internos já-criados desde o nascimento. Neste ponto, as técnicas freudiana e kleiniana se encontram numa encruzilhada insolúvel. Na visão de Durval Marcondes, elas se tornaram possíveis porque foram feitas adaptações próprias em que as duas poderiam conviver sem contradições e dilemas técnicos.

Como na clínica psicanalítica hoje, os pacientes neuróticos praticamente deixaram de existir ou se tornaram uma ínfima minoria, então os dilemas de técnica referentes à libido apoiada e libido narcisista saltam aos olhos de qualquer psicanalista. Desta forma, a proposta técnica de Durval Marcondes expõe hoje muito mais os problemas a serem enfrentados do que as possíveis soluções técnicas encontradas naquele momento.

 

A TEORIA DA LIBIDO

Em relação à teoria da libido, Durval Marcondes realizou um verdadeiro feito contemporâneo nos anos 1950 e 1960 quando a obra de Freud começou a ser obnubilada pela nova psicanálise de Melanie Klein. Durval Marcondes não deixou cair no esquecimento da nova Psicanálise das relações objetais a teoria freudiana da libido.

No entanto, Durval Marcondes se apegou somente ao Freud dogmático quando se propôs a um aprofundamento da teoria da libido. Não foi capaz de alcançar o Freud genético que está embutido na teoria da libido. Aliás, esta incapacidade de continuar a desenvolver a teoria da libido lá onde Freud teria parado é também observável e constatável inclusive, nos nossos dias, em que a moda das escolas psicanalítica já passou, mas a obra de Freud continua em pé lançando desafios e enigmas na e para a Psicanálise do século 21.

O Freud genético contido na teoria da libido ainda permanece soterrado, hoje, como se fosse a amnésia histérica do século 19. As diversas escolas psicanalíticas não foram capazes de fazer avançar a teoria da libido que, no balanço final destas escolas, se distanciou da teoria freudiana (apesar de ter havido um suposto retorno a Freud) e assim involuntária ou voluntariamente deixou a teoria da libido virgem, intocável.

Durval Marcondes não descobriu que a disposição bissexual e a disposição perverso- polimorfa devem ser consideradas ao mesmo tempo como sendo as disposições originárias da teoria da Libido de Freud. Mais ainda, as disposições originárias “resolveram” o impasse do século 19 que se referiu ao inato e adquirido. Psicanaliticamente, Freud propôs que a ontogênese reproduz a filogênese. Nestes termos, o índice filogenético está registrado libidinalmente nas e pelas disposições originárias.

Considerando que as disposições originárias não existem apenas como um “núcleo primitivo” do desenvolvimento libidinal, mas são as condições de possibilidade de todo e qualquer desenvolvimento libidinal, então as disposições originárias permanecem ativas de forma inconsciente durante toda a vida do sujeito. Portanto, é fundamental considerar que a disposição bissexual e perverso-polimorfo se colocam ou se expressam como sendo uma continuidade genético-desenvolvimental, nas diferentes psicopatologias e também na normalidade.

Dentro desta teoria da libido, que não é explicitada como um todo por Durval Marcondes, insere-se o “núcleo hermafrodita primitivo” que se restringe a ser examinado no caso das perversões sexuais e da esquizofrenia, mas omite seu exame no caso do casal heterossexual “normal”. Como o “núcleo hermafrodita primitivo” se exterioriza quando se trata de um heterossexual “normal”? Quais são as diferenças e semelhanças entre os perversos, os psicóticos e os “normais”? E, talvez, sobretudo, a questão fundamental a ser levantada: o núcleo hermafrodita primitivo faz evoluir ou regredir o heterossexual “normal”?

Durval Marcondes não se pôs tais questões, mas este não é um problema somente dele, mas é também um problema a ser assumido por nós que pretendemos ser psicanalistas pós-freudianos do século 21. Eis uma atualidade involuntária de Durval Marcondes para as gerações psicanalíticas que o sucederam.

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